| |
| comunidade |
 |
A CULPA É DO TREMA
Mario Roberto Bonomo
Já que perdeu o trema, lingüiça poderia ser escrita assim “linguissa”. Por que não?
A nova reforma ortográfica só servirá para manter o Brasil como um país de 100% de analfabetos.
O fato de ter quatro verbos auxiliares e sons nasais inexistentes em muitas línguas, inclusive o espanhol, faz da língua portuguesa uma das mais difíceis. Isso é apenas a ponta de um iceberg. Uma língua que possui a riqueza ou o agravante de falar de uma maneira e escrever de outra, sofre ainda com regras confusas que primam pelas exceções permitindo colocar o pronome em qualquer lugar, e assim por diante.
Algo me parece mais questão de oportunismo comercial do que lingüístico, ou então a permanência de um pensamento daquilo que vem do primeiro mundo é o que conta - já que agora Portugal também é Europa. A preocupação maior é econômica, pois precisamos ter um pé no mercado europeu. Os angolanos e os demais que nos sigam! Uma posição imperialista tardia por parte do Brasil, pois tende a impedir uma diversidade cultural.
Não sei como está atualmente, mas na França, o português era a segunda ou terceira língua a ser aprendida nas escolas - o primeiro o inglês – por causa do elevado número de alunos de origem portuguesa. Em sua esmagadora maioria, filhos de emigrantes. Já há um bom tempo que os franceses fazem distinção entre “portugais du Portugal” e “portugais du Brésil” ou então simplesmente “brésilien” , para resolver uma questão séria de discriminação, pois os alunos não querem aprender o português. Por fazerem, os franceses, uma enorme distinção entre portugueses e brasileiros, adotaram eles como solução o ensino da “língua brasileira”. Por causa de nossa pronúncia mais suave, quase cantada, que soa melodiosa aos ouvidos franceses. Diferença reforçada pelo mito do “pays du soleil”, das praias douradas, dos coqueiros, entre outras imagens paradisíacas. Desse modo, procuraram as autoridades atenuar a dura vida daqueles portugueses com seus filhos, que se recusavam a falar a língua paterna, quanto mais aprendê-la.
A unificação ortográfica é um retrocesso, pois tenta impedir o surgimento de uma nova língua, que efetivamente já existe e é falada por quase 190 milhões de pessoas. Para o estrangeiro será mais fácil identificar o Brasil, pois muitos não entendem como uma mesma língua é falada de modo tão diferente. Mesmo para nós brasileiros na França, que convivemos o dia a dia com as “concierges” portuguesas, tínhamos dificuldades em entender o que elas falavam. Entre expressões usadas em Portugal havia palavras em francês, pois o português lhes fugia a lembrança.
E a escrita de nossos filhos?
Assim como foi feito com tantas gírias e palavras estrangeiras, já que agora alegremente incorporaram “k”, “y” e “w”, poderíamos pensar em fazer o mesmo com que é escrito num computador, onde existe uma infinidade de palavras incompreensíveis a milhares de pais. A dinâmica da língua é contínua e nesses tempos de alta tecnologia tornou-se algo bastante acelerada, pelo surgimento quase diário de novas palavras.
Certas línguas tiveram mudanças fundamentais, como o francês, no século 18, que adotou o latim para organizar seu dicionário, o turco que substituiu a escrita árabe por caracteres ocidentais; e o alfabeto russo, cujas letras foram extraídas do alfabeto grego. Mudanças que tiveram influência decisiva nas suas culturas e organização social.
A Educação tem sido prioridade de marketing de figuras ilustres que vão à televisão dizer que empregado analfabeto dá prejuízo. Há de se reconhecer que tem sido duro para eles substituir a chibata pelo teclado
O Brasil pode avançar e dar um salto para resolver essa situação extremamente complexa, livrando-se de uma reforma que se apresenta com mais erros do que acertos. Pode-se pensar em acabar com os hífens, riscar do alfabeto o “ç”, pois já não existe nos endereços eletrônicos; reduzir significativamente os acentos e, ou substituí-los por letras. Atenuar as terríveis diferenças entre “z” e “s”, ou então “ch” e “x”. Inúmeros casos de dúvidas a esse respeito deveriam ser de vez eliminados. Pôr um fim a tantas ênclises, mesóclises e próclises, que estão prontas para confundir.
Uma reforma ortográfica e gramatical que estabeleça, antes de tudo, o uso correto da língua de modo simples e acessível. Que todos saibam escrever corretamente, evitando que o despreparo generalizado se torne uma pegadinha perversa num “Soletrando na TV” para pobres estudantes esperançosos.
Enfim, permitir que eu “escreva errado”. Me deixe escrever brasileiro!
página principal