ISSN 1809-0737 . ano 3. número 30 . junho 2008
 
memória

Preservando memórias: o distrito de Miraporanga. Uberlândia - Minas Gerais

Geovanna de Lourdes A. Ramos


Geovanna de Lourdes A. Ramos é mestre em História Social pela Universidade Federal de Uberlândia - UFU

É no decorrer da estrada quase toda horizontal, com paisagens que quase se desfizera por completo com a chegada do reflorestamento, numa curva aqui, noutra ali, de repente surge o distrito - Miraporanga - com suas primeiras casas e o silêncio dos moradores, que não se desfez ao longo dos anos.

Não há muito que se conhecer no distrito, somente uma escola, casas coloniais cercadas de matos, poucas rosas e árvores frutíferas. Encontra-se também, um cartório com um grande acervo documental de época e um cemitério... com pedras antigas e sepulturas rústicas, um ou outro sepulcro conservado e as lápides têm suas inscrições toscas, quase apagadas. Há duas Igrejas no povoado, mas somente uma encanta a região: a Igreja Nossa Senhora do Rosário. A outra igreja é a Nossa Senhora do Carmo, hoje desativada devido às péssimas condições de conservação, construída em meados de 1960.

 
Fachada da Igreja de Nossa Senhora do Rosário no Distrito de Miraporanga em Uberlândia, Minas Gerais.
Foto: Geovanna de Lourdes A. Ramos
  Altar da Igreja de Nossa Senhora do Rosário no Distrito de Miraporanga em Uberlândia, Minas Gerais.
Foto: Geovanna de Lourdes A. Ramos

São poucos os habitantes que restaram no distrito e os mesmos buscam trabalho no campo, devido não existir atividades econômicas locais. Historicamente, esta região foi povoada. Se formos levados pelas informações das fontes documentais, a partir de 1880, percebemos que o povoado constituía-se de muitas casas comerciais. Havia também, a central de telégrafos que ligava a região ao estado de Goiás e agência de correios. Essas evidências demonstram que Miraporanga, constituía-se num entreposto comercial muito importante na região. Dentro desta análise, é de se estranhar que dada a sua importância, a história da mesma seja retratada com pouca relevância na história triangulina.

À mudança do nome do distrito – antes Santa Maria - leva aos historiadores a seguinte reflexão: a política do município reservara um outro destino ao povoado. Destino este, que os colocaria à margem do desenvolvimento econômico. Acreditamos ser possível, e as evidências nos fazem pensar que assim aconteceu.

Em seus trabalhos, o memorialista Tito Teixeira, que traçou um panorama de toda a região do Triângulo, anteriormente denominado como Sertão da Farinha Podre, escreve que o povoado teve origem em 1810, com as primeiras caravanas dos bandeirantes que almejavam chegar em Goiás. No estudo da documentação arrolada, Santa Maria se transformou rapidamente em grande parte por sua localização, que se situa entre Uberaba, Prata, Monte Alegre e Araguari, ao lado da Estrada Real aberta pelo famoso Anhanguera, sendo que esses fatores geográficos corroboraram para o desenvolvimento da região.

A historiografia local não faz nenhuma menção significativa do distrito de Miraporanga. Os historiadores e cronistas da região insistem em não considerar a relação estreita, porém considerável que o mesmo teve no processo de formação do Município de Uberlândia. Desde fontes mais recentes às mais tradicionais não encontramos nenhuma referência relevante ao povoado.

Mapa do Municípo de Uberlândia. Fonte: Enciclopédia dos Municípos. IBGE  

Existem muitos vestígios que, em Miraporanga havia um número considerável de população escrava, que vem a se confirmar por meio de construções que se encontram atualmente no distrito. Também por meio da leitura de documentos de época no acervo do cartório local, no estudo da documentação relativa a este assunto, lemos que a venda de escravos era cotidiana. Se, por um lado, analisarmos os marcos existentes no povoado, visualizamos que tanto a Igreja Nossa Senhora do Rosário, construída no século 19, por volta de 1850 a 1852 e os muros existentes, confirmam nossas evidências.

É uma reminiscência de uma das primeiras construções de estilo colonial, e é possível identificá-la como não sendo bandeirista por não se enquadrar no contexto tipológico daquelas. Em primeiro lugar sua edificação se deu num período em que as bandeiras já haviam se extinguido, isto ocorrendo em meados do final do século 18, portanto quase meio século antes da construção da capela.

São marcos da fundação do povoado por volta de 1810. Percebemos claramente por meio da análise de uma foto, do arquivo pessoal da prof. Ioná Machado de Alcântara,  professora à 13 anos da escola  local. A foto nos permite observar que a  igreja  já  estava bastante velha e em destruição quando foi retratada pelo fotógrafo, com o cruzeiro centenário e o chafariz, o que vem a confirmar que a mesma se trata de uma das três igrejas mencionadas pelo memorialista, já que o mesmo escreve na década de 1970. Já a terceira igreja, não temos nenhuma pista aceitável para confirmar o dado de Tito Teixeira.

A igreja Nossa Senhora do Rosário apresenta fachada simples, simétrica, telhados de duas águas e não possui torre sineira, dado fundamental que identifica as capelas paulistas. O material utilizado em sua contrução foi o tijolo adôbe, e sua disposição interna é demarcada por corredores laterais. O piso é de tábuas com aproximadamente 0,40 m de largura. As portas e janelas são construídas de madeira e o sistema de abertura é de dobradiças comuns.
Comportava em seu interior a imagem da padroeira do vilarejo: Nossa Senhora das Neves, sempre venerada no lugar, mas que com o conhecimento do valor foi retirada da capela. Conforme depoimento da prof. Ioná, as autoridades religiosas,  alegaram que o distrito não possuía segurança apropriada para que a mesma permanecesse no local. Belíssima imagem, de autor desconhecido, autêntica obra de arte, de valor inestimável. No altar, juntamente com a santa, permaneceu São Sebastião, ao que parece foi um dos santos de grande devoção do povo triangulino do século 19.

É neste ambiente simples, sem sombra de dúvida, que a comunidade se encontra e faz uma viagem histórica, especialmente trocando memórias advindas de um passado não muito distante dos primeiros tempos do distrito, outrora importante centro de irradiação econômica regional e, hoje em decadência.

Assim, esse povoado histórico de Minas, permanente no tempo, possui muitas histórias/memórias. O patrimônio histórico, a capela de Miraporanga é um sinal do passado, que permanece no tempo, e que foi e é de indiscutível valor para a nossa história.
Digna de estudos mais aprofundados, o distrito de Miraporanga, se apresenta com muitas interrogativas a serem analisadas, mas que, para tanto se faz necessário aprofundar em fontes escritas e orais, problematizando muitas questões aqui pendentes. É exeqüível pesquisar determinada sociedade, sua origem e o processo de sua permanência em um determinado lugar, bastando para isto, um aprofundamento no campo da investigação histórica pelo historiador.  

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