artes plásticas . ano 3 . número 29 . junho 2008
 
artes plásticas

 

Cristiane Alcântara

Grupo CoBrA
Interdisciplinariedade libertária

 

Cristiane Alcântara é mestre em artes plásticas.


     Dentro das vanguardas do século passado um grupo em especial explorou e defendeu a liberdade de expressão artística e a coexistência de suas diferenças e particularidades: o grupo CoBrA, movimento que não teve um grande período de existência, mas que entretanto deixou uma larga produção e seu nome impresso de maneira significativa na história das artes.
    O CoBrA surgiu em Paris entre os anos de 1948 e 1951, composto por artistas dinamarqueses, belgas e holandeses – daí  explica-se o nome CO, Copenhague, BR, Bruxelas e A, Amsterdã – após participação em uma conferência internacional sobre a arte de vanguarda. A partir de então, redigiram um texto manifesto propondo uma criação artística em grupo, mas que preservá-se as especificidades das diferentes experiências nacionais de cada um de seus artistas. Neste e nos próximos textos escritos pelo grupo já estava evidenciada uma clara defesa à livre expressão.
    A imagem da serpente, símbolo do Grupo, possuía, de acordo com seus criadores, o sentido de uma sinuosa linha sem começo nem fim, numa ruptura com o tempo e o espaço. Assim, o CoBrA deixa clara as características de coletividade na defesa de uma arte sem fronteiras.
    Assinaram o manifesto Christian Dotremont (1922-1979), Asger Oluf Jorn (1914-1973), Joseph Noiret (1927), Karel Appel (1921), Constant (1920) e Corneille Guillaume Beverloo (1922). Todos eram de alguma maneira relacionados com o comunismo, e acreditavam que todo artista que defendesse a experimentação em arte deveria ser um comunista. Posteriormente, em 1949, em virtude do realismo socialista, aproximam-se da Internacional Situacionista. Este fato também se dá devido a defesa da liberdade e da revolução, apoiadas por Constant na quarta edição da revista COBRA, tema que se tornaria central para o Movimento Situacionista. Nesta ocasião, os artistas discutiam o envolvimento do Surrealismo Internacional com o partido comunista. Finalmente, chegaram a conclusão de que a participação direta com o regime  não os levaria a nada.
    Apesar de seu caráter revolucionário, o grupo CoBrA chegou a ser considerado conservador por uma parte dos críticos e artistas parisienses, isto, pelo fato de suas obras não serem totalmente abstratas. A nova figuração, que direcionava alguns dos trabalhos do grupo, era definida por um imaginário lúdico, presente na maneira espontânea de utilização das cores e dos gestos, relacionados ao retorno de um imaginário mágico e folclórico. Bichos e figuras diversas eram retratadas como que retiradas de um desenho infantil, possuindo ainda, um grande vigor expressivo e sugestivo.
       A arte expressionista de Edvard Munch (1863-1944), e a tradição do folclore nórdico, interessaram a Asger Oluf Jorn e Egill Jacobsen (1910), influências percebidas em pinturas de cores vibrantes e pinceladas expressivas. Jorn, juntamente com Enrico Baj (1924), defendeu uma  'Bauhaus imaginativa', demonstrando aqui a tendência anticonstrutivista de sua arte e da arte feita por seus companheiros de grupo. Assim, na Holanda, militaram em oposição à tradição construtiva do De Stijl  [O Estilo] de Piet Mondrian (1872-1944) e Theo van Doesburg (1883-1931), símbolos de oposição ao expressionismo e ao surrealismo.
    O pintor, escultor e artista gráfico Jacobsen, relacionou suas pesquisas pictóricas e seu trabalho à exploração da máscara, esta, como um elemento iconográfico e fundamental do desenvolvimento de sua linguagem. No trabalho de Appel, está presente uma das principais características do CoBrA, a ingenuidade dos traços do desenho infantil. O pintor se tornou conhecido pelas imagens abstratas que sugeriam máscaras humanas e animais fantásticos, ao mesmo tempo aterrorizantes e dotadas de infantilidade.
    Ao relacionarem o homem com o mundo, através da psicologia de Carl Jung, da arte dos loucos, das crianças e dos primitivos, realizaram uma arte fantástica, fabulosa e mitológica. Já o surrealismo foi utilizado pelo grupo na inspiração pela escrita automática e na defesa do inconsciente como fonte de criação em arte. Vem daí a outra denominação do grupo: "Internacional de Artistas Experimentais". A linguagem de seus artistas se caracterizava fundamentalmente pela espontaneidade e experimentação de um gesto sem intencionalidade.
     Além da pintura, produziram escultura, desenho, cerâmica, música, cinema e literatura. O que evidencia a característica do grupo de defesa da interdisciplinaridade entre os artistas.
    Criado como uma revolta à destruição e a desumanidade da guerra, o CoBrA procurou retomar  valores humanos básicos num período em que a criação artística se baseava fortemente pela busca fundamental do novo. Uma arte feita por artistas pacifistas que procuraram colocar em prática a harmonia de seus ideais humanos e artísticos.

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Bibliografia:

ALVARADO, Daisy Valle Machado Peccinini de. Figurações Brasil anos 60: neofigurações fantásticas e neo-surrealismo, novo realismo e nova objetividade brasileira. Prefácio José Roberto Teixeira Leite; apresentação Ricardo Ribenboim. São Paulo: Edusp: Itaú Cultural, 1999. 180 p., il. p&b.

BIENAL INTERNACIONAL DE SÃO PAULO, 24. Núcleo histórico: antropofagia e histórias de canibalismos. Curadoria Paulo Herkenhoff, Adriano Pedrosa; apresentação Paulo Herkenhoff, Francisco Weffort. São Paulo: Fundação Bienal de São Paulo, 1998.

COBRA (1948-1951). Réimpression en fac-similé de la collection complète des dix numéros de la Revue Cobra, suivi du Petit Cobra, de Tout Petit Cobra et des nombreux  documénts. Apresentação C. Dotremont. Paris: Éditions Jean-Michel Place, 1980

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