memória . ano 2 . número 18 . junho 2007

 


FALA-SE TANTO EM MEMÓRIA PORQUE ELA NÃO EXISTE MAIS

Mario Bonomo

 

O grande interesse que há pelos lugares de memória é específico desse momento particular da nossa história. O mundo inteiro entrou na dança por um fenômeno bem conhecido orquestrado pela mídia porta-voz da globalização, da democratização e da massificação cultural. Por aí começa a necessidade de consagrar lugares à memória, porque não existe mais meios de memória. “Se habitássemos ainda nossa memória não teríamos necessidade de lhe consagrar lugares. Não haveria lugares porque não haveria memória transportada pela história.” (*)

O apogeu do crescimento industrial representou o fim dos camponeses, uma coletividade-memória por excelência. Esse foi o desmoronamento central da memória dos países ricos. Nos países economicamente dependentes, a independência política, conduziu para uma história de afirmação nacional em contrapartida à memória deixada  pela violência colonial. O que provocou rupturas de identidade, pois o movimento de descolonização atingiu todas as etnias, grupos e famílias, com forte bagagem de memória mais fraca bagagem histórica.

“Os lugares de memória são, antes de tudo, restos. A forma extrema onde subsiste uma consciência comemorativa numa história que chama, porque ela a ignora. É a falta de rituais do nosso mundo que faz aparecer a noção. O que secreta, veste, estabelece, constrói, decreta, mantém pelo artifício e pela vontade uma coletividade fundamentalmente envolvida em sua transformação e sua renovação. Valorizando, por natureza, mais o novo do que o antigo, mais o jovem do que o velho, mais o futuro do que o passado. Museus, arquivos, cemitérios e coleções, festas, aniversários, tratados, processos verbais, monumentos, santuários, associações, são os marcos testemunhas de outra era, das ilusões de eternidade. Daí o aspecto nostálgico desses empreendimentos de piedade, patéticos e glaciais. São os rituais de uma sociedade sem ritual, sagrações passageiras numa sociedade que não conhece mais o sagrado; fidelidades particulares de uma sociedade que aplaina os particularismos: diferenciações efetivas numa sociedade que nivela por princípio; sinais de reconhecimento e de pertencimento de grupo numa sociedade que só tende a reconhecer indivíduos iguais e idênticos.” (*)

VERDADEIRA MEMÓRIA

A distância entre a memória verdadeira, social, intocada, aquela cujas sociedades ditas primitivas ou arcaicas, representaram o modelo e guardaram consigo o segredo e a história que é o que nossas sociedades condenadas ao esquecimento fazem do passado, porque levadas pela mudança.

Entre uma memória integrada, ditatorial e inconsciente de si mesma organizadora e toda poderosa, espontaneamente atualizada uma memória sem passado que reconduz eternamente a herança, conduzindo o antigamente dos ancestrais ao tempo indiferenciado dos heróis, das antigas origens e do mito - e a nossa, que só é história, vestígio e trilha.

SOCIEDADES-MEMÓRIA

Fim das sociedades-memória, como todas aquelas que asseguravam a conservação e a transmissão dos valores, igreja ou escola, família ou Estado. Fim das ideologias-memória, como todas aquelas que asseguravam a passagem regular do passado para o futuro, ou indicavam o que se deveria reter do passado para preparar o futuro, quer se trate da reação, do progresso ou mesmo da revolução. Ainda mais: é o modo mesmo da percepção histórica que, com a ajuda da mídia, dilatou-se prodigiosamente, substituindo uma memória voltada para a herança de sua própria intimidade pela película efêmera da atualidade.

A MEMÓRIA DE PAPEL

“O que nós chamamos de memória é de fato, a constituição gigantesca e vertiginosa do estoque material daquilo que nos é impossível lembrar, repertório insondável daquilo que poderíamos ter necessidade de nos lembrar. A ‘memória de papel’ da qual falava Leibniz tornou-se uma instituição autônoma de museus, bibliotecas, depósitos, centros de documentação, bancos de dados. Somente para os arquivos públicos, os especialistas avaliam que a revolução quantitativa, em algumas décadas, traduziu-se numa multiplicação por mil. (...)


OS LUGARES DE MEMÓRIA

“Os lugares de memória nascem e vivem do sentimento que não há memória espontânea, que é preciso criar arquivos, que é preciso manter aniversários, organizar celebrações, pronunciar elogios fúnebres, assinar atas, porque essas operações não são naturais. É por isso a defesa, pelas minorias, de uma memória refugiada sobre focos privilegiados e zelosamente guardados nada mais faz do que levar à incandescência a verdade de todos os lugares de memória.” (*)

A vigilância comemorativa, sobre a qual a história se escora para defender os lugares que estão ameaçados, é uma necessidade de preservá-los enquanto memória. Se houvesse verdadeiramente as lembranças que envolvem esses lugares, eles seriam inúteis. Porém, se a história não se apoderasse deles para deformá-los, transformá-los e petrificá-los eles não se tornariam lugares de memória. É essa troca que caracteriza esse momento da história. Momento esse arrancado do próprio movimento da história, que lhe é devolvido “nem à vida e nem à morte”. (*)

NÃO ESTAMOS MAIS DENTRO DA VERDADEIRA MEMÓRIA, MAS DENTRO DA HISTÓRIA.

Nessa parte, tomamos a liberdade de destacar partes do texto de Pierre Nora  para enfatizar a diferenciação entre história e memória.

- A história é a reconstrução sempre problemática e incompleta do que não existe mais.
- A história é não legitima o passado vivido.
- A história se liga às continuidades temporais, às evoluções e às relações das coisas.
- A história, ao contrário, pertence a todos e a ninguém, o que lhe dá uma vocação para o universal.
- A história, porque operação intelectual e laica demanda análise e discurso crítico.
- A história só se liga às continuidades temporais, às evoluções e às relações das coisas.
- A memória é sempre suspeita ora à história, cuja verdadeira missão é destruí-la e a repelir.
- A memória é um fenômeno sempre atual, um elo vivido no eterno presente, a história, uma representação do passado. Porque é afetiva e mágica, a memória não se acomoda a detalhes que a confortam; ela se alimenta de lembranças vagas, telescópicas, globais ou flutuantes, particulares ou simbólicas, sensível a todas as transferências, cenas, censuras ou projeções.
- A memória é um absoluto e a história se conhece o relativo.
- A memória emerge de um grupo que ela une, o que quer dizer, como Halbwachs o fez, que há tantas memórias quantos grupos existem: que ela é por natureza, múltipla e desacelerada, coletiva, plural e individualizada.
- A memória instala a lembrança no sagrado, a história a liberta, e a torna sempre prosaica.
- A memória se enraíza no concreto, no espaço, no gesto, na imagem, no objeto.
- A memória é a vida, sempre carregada por grupos vivos e, nesse sentido, ela está em permanente evolução, aberta à dialética da lembrança e do esquecimento, inconsciente de suas deformações sucessivas, vulnerável a todos os usos e manipulações, suscetível de longas latências e de repentinas revitalizações.

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referência bibliográfica:
(*) “Entre memória e história: a problemática dos lugares”. Capítulo do original:NORA, Pierre, Les lieux de mémoire. I La Republique. Paris: Gallimard, 1984, pp.XVII-XLII. Tradução autorizada pelo Editor: Editions Gallimard 1984, para Traduções, Proj. História, São Paulo (10), dez. 1993. Traduzido por Yara Aun Khoury. Textos da página 7 à página 15 da tradução.

 

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