cidade . ano 1 . número 11 . novembro 2006

 


COPACABANA 39m2 - Rio de Janeiro RJ

Mario Bonomo

O sociólogo Gilberto Velho analisou uma parcela dos moradores de Copacabana, no Rio de Janeiro, cujo objeto de estudo foi o Edifício Estrela, onde vivem 166 famílias.

Edificio Estrela. Foto: Romy Cwajgenberg, 2006  

O prédio teve sua construção iniciada em 1954 e o habite-se dado em 1958.  Com dez andares e dezesseis apartamentos por andar, possui, também uma, cobertura com seis apartamentos idênticos aos dos andares inferiores. Alinhavam-se em um corredor estreito e comprido, sem janelas: oito apartamentos de frente e oito de fundos. Os primeiros dão para a rua Bolívar e os últimos para os pátios internos dos edifícios do quarteirão e para os fundos da igreja São Paulo Apóstolo, na rua Barão de Ipanema. O acesso feito por dois elevadores para atender todos os apartamentos, em geral um de serviço e o outro social e uma escada freqüentemente utilizada por causa dos defeitos constantes nesses elevadores.

“Quanto aos apartamentos propriamente ditos, têm 39m2 com uma saleta de entrada, um corredor relativamente longo, para onde dão a cozinha e o banheiro, muito pequenos, sendo que a janela deste dá para a primeira. Na cozinha há um pequeno tanque de lavar roupa. Terminado o corredor, chega-se ao aposento maior, a sala e quarto conjugados, por vezes divididos, pelos moradores através de um móvel ou uma porta de vidro. Há uma janela num extremo do quarto e sala, um basculante na saleta e uma janela na cozinha, dando para uma estreita área interna do prédio de 2,5m2.”  (1)
Esse tipo de planta do apartamento, com pouca abertura: somente uma janela, tema iluminação natural deficiente e comprometida, principalmente nos andares mais baixos, que raramente ou nunca recebem a luz do sol.

O bairro de Copacabana teve, a partir da década de 1940, grande expansão com a construção civil por causa, em parte, da Segunda Guerra Mundial, que abrigou inúmeros refugiados europeus, muitos de origem judaica. Copacabana foi transformando-se aceleradamente com o surgimento de edifícios e a demolição de casas. 

“A falta ou precariedade de uma regulamentação, as deficiências de um código de obras, a força de grandes interesses garantem um crescimento desordenado para o bairro. As possibilidades de lucros são tão tentadoras que aventureiros formam ‘companhias’ e começam a construir prédios que muitas vezes terão suas obras paralisadas, levando às vezes mais de dez anos para serem construídos. Sobrevivem as grandes companhias, com mais capital, mais ‘racionalizadas’ ou com melhores contatos. A partir de 1950 começaram a proliferar os edifícios com apartamentos do tipo conjugados, entre eles o Edifício Estrela, permitido maiores lucros ainda às construtoras e acelerando enormemente o crescimento demográfico do bairro.” (2)

No entanto, muitas pessoas perderam dinheiro ao comprar apartamentos em Copacabana:

“As obras infindáveis carreavam mais e mais recurso até que, freqüentemente, a pessoa era obrigada a desistir do apartamento, revendendo-o com prejuízo. Até alguns anos atrás, antes do Banco Nacional da Habilitação, era muito comum encontrar no bairro os ‘esqueletos’ de edifícios interrompidos pela metade. Houve quem conseguisse comprar através de financiamento da Caixa Econômica, Clube Militar etc. O fato é que isto era uma possibilidade restrita a certos grupos que tinham como obter financiamento. Apesar desse quadro, milhares de pessoas se arriscaram a comprar e outras se dispuseram a alugar mais caro do que em outros bairros.” (3)

Embora a maioria desses prédios não possuísse garagem – pois os apartamentos foram vendidos como salas comerciais – alguns, como é o caso do Edifício Estrela, não tinham comércio no térreo e sim pilotis o que os valorizavam. Com a arquitetura moderna de Brasília, os pilotis viraram moda, o que fez surgir no bairro, muitos prédios com a sua utilização tornando-os mais elegantes e acentuando as características residenciais.

Mas, na segunda metade da década de 1950, durante o governo de Juscelino Kubitschek, o bairro tornara-se cosmopolita, pelo adensamento e a altura dos prédios. Vivia-se naquele momento um período de relativa abertura democrática, que propiciou o surgimento da bossa nova, da arte concretista e do cinema novo, entre outras manifestações culturais. Porém, vivia-se também uma situação que tanto incomodava os cariocas: a construção de Brasília e a transferência da capital.  Para uma pequena parcela de funcionários públicos era deixar o mar azul de Copacabana para viver em um lugar seco de terra vermelha, o que não era nada convidativo.

Para esses, moradores do bairro, mesmo vivendo em  um apartamento conjugado, era muito melhor do que ir para  Brasília. Os hábitos que poderiam ter em apartamentos ou casas maiores, eram deixados de lado em nome do conforto e  da modernidade que só Copacabana podia oferecer.

Assim, no cotidiano, lavar roupa era difícil, pois os apartamentos, mesmo com pequenos tanques na cozinha, não tinham espaço para estendê-la. As máquinas de lavar  da época eram caras e grandes demais para caberem dentro do apartamento. Havia lavanderias no bairro, mas o serviço pela freqüência, tornava-se caro, por isso era comum ver lavadeiras com trouxas de roupas pelas ruas do bairro. O leva-e-traz  da casa do freguês a sua casa, em geral no subúrbio, era corriqueiro, pois lá havia espaço, água e sol. As lavanderias do tipo auto-serviço, comum em país rico,  inexistiam na cidade. A dificuldade maior era, no entanto, a falta d’água crônica em Copacabana, motivo de piadas da população. O bairro viveu sob racionamento por muito tempo.

Nos apartamentos do tipo do Edifício Estrela, havia dificuldades na arrumação dos móveis. Os mesmos que cabiam  meio apertados em um apartamento de dois quartos, em um conjugado, então, ficavam em situação pior. Na época, os móveis feitos, ainda quase que de modo artesanal e de grandes tamanhos, eram para casas amplas e famílias numerosas. Uma produção voltada para o indivíduo praticamente não existia. Foi esse tipo de apartamento que atraiu para o bairro pessoas que viviam só, ou somente o casal; embora, fosse comum encontrar famílias com filhos. Nas feiras-livres de Copacabana – já que supermercado era coisa recente – podia-se sentir de modo mais acentuado a existência desse grupo de pessoas, dado às porções de frutas, legumes e verduras adquiridas em menores quantidades.

A modernidade, contemporânea à transformação do bairro, chegou com a televisão, o telefone e o carro. As instalações de uma das primeiras emissoras de televisão – a TV Rio – ficavam no Posto 6, em Copacabana.  O telefone, como precisava de obras de infra-estrutura, funcionava de modo precário. Era artigo de luxo que as pessoas aguardavam anos para adquiri-lo e quase sempre por um valor altíssimo. As ruas que nunca foram alargadas, foram invadidas por centenas de automóveis e muitos caminhões, além de uma imensa frota de ônibus, bondes e lotações que fizeram delas um cenário de barulho e engarrafamentos.

A densidade populacional de Copacabana ocorreu, sobretudo, pela construção de edifícios como o Estrela, que propiciou a democratização do bairro pela mistura de classes sociais distintas. Mesmo com a existência de favelas, o bairro tem características próprias que o fazem ainda um dos melhores do Rio de Janeiro. A proliferação de prédios de apartamentos do tipo conjugado, motivo de desdém e críticas acirradas de muitos arquitetos, transformou o bairro de uma elite instalada desde princípios do século 20, em um bairro um pouco mais popular. Com isso, permitiu o acesso de pessoas da classe média, em geral assalariadas, adquirirem certo padrão social que não teriam em outros bairros.

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Referência bibliográfica

  1. VELHO, Gilberto. A utopia urbana: um estudo de antropologia social. 4a ed. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1982. p.30.
  2. Ibidem., p.23.
  3. Idem.

 

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